Escrevi sobre A noção de técnica para Heidegger como uma forma de resumo mais simples
A essência não técnica da técnica e a sua não neutralidade (P33)
Questionamos a técnica e pretendemos com isso preparar uma livre relação para com ela. A relação é livre se abrir nossa existência (Dasein) à essência da técnica. Caso correspondamos à essência, estaremos aptos a experimentar o técnico <das Technische> em sua delimitação. (P34)
Para Heidegger, é necessário encontrar a essência da técnica para que seja possível experimentar o técnico.
- assim como o que domina toda a arvore não é a própria arvore, a essência da técnica não é algo técnico
Para Heidegger, a essência da técnica não poderá ser experimentada enquanto apenas representarmos e propagarmos o que é técnico… enquanto a técnica for considerada como algo neutro, estaremos cegos quanto a sua essência.
A determinação instrumental e antropológica da técnica que define a técnica moderna (P35)
A concepção corrente de técnica, segunda a qual ela é um meio e um fazer humano, pode, por isso, ser chamada de determinação instrumental e antropológica da técnica. (P36)
Heidegger considera correta a concepção corrente de técnica, pois estabelecer fins e para isso arranjar e empregar os meios constitui um fazer humano. As instalações (instrumentos, aparelhos e máquinas) sendo arranjadas e empregadas de certo modo constituem a técnica e a própria técnica também é uma instalação, a determinação instrumental da técnica serve para definir a técnica moderna, a técnica moderna é também, portanto, um meio para fins.
Para Heidegger, essa relação se expressa em um querer-dominar do homem para com a técnica, que se torna “tão mais iminente quanto mais a técnica ameaça escapar do domínio dos homens”. O homem busca uma relação com a técnica norteado por uma concepção instrumental da técnica
Tudo se reduz ao “lidar de modo adequado com a técnica enquanto um meio. (P37)
A concepção instrumental da técnica não representa a sua essência, como impera a causalidade na técnica e a necessidade do questionamento da noção secular da causalidade quádrupla (P37)
Na P37, Heidegger explica o seu critério de verdade enquanto desocultamento
Embora a concepção instrumental da técnica seja correta, ela ainda não mostra a essência da técnica, Heidegger inicia a sua reflexão em busca dessa essência a partir de duas perguntas: o que é o instrumental mesmo? Onde se situam algo como um meio e um fim?
Onde fins são perseguidos, meios são empregados e onde domina o instrumental, ali impera causalidade (Ursächlichkeit), a causalidade (Kausalität).
Na P38 existe uma nota sobre essa dupla idéia de causalidade e a relação com os sentidos do termo "causa" em alemão e em latim, que ressalta um sentido histórico do termo
Através dessa noção de causalidade, Heidegger resgata as quatro causas da filosofia (causalidade quádrupla) através do exemplo da fabricação da taça de prata
- a causa materialis: o material, a matéria a partir do qual algo é feito
- a causa formalis: a forma, a figura, na qual se instala o material
- a causa finalis: o fim, o sacrifício para o qual algo requerido é determinado segundo matéria e forma
- a causa efficiens: o que efetua o efeito, o algo acabado
Heidegger questiona a noção tradicional das quatro causas (causalidade quádrupla), pois do contrário a própria causalidade, o instrumental, e então a determinação usual da técnica permanecerão na escuridão e destituídos de fundamento
or que existem justamente quatro causas? O que significa propriamente “causa”, em relação às quatro causas nomeadas? A partir de onde se determina tão unitariamente o caráter de causa das quatro causas, a ponto de estarem relacionadas? (P39)
As quatro causas como modos de comprometimento (P40)
Os limites das noções aristotélicas (causa efficiens) e as causas enquanto modos de comprometimento (P40,P41)
As quatro causas são os modos de comprometimento (Verschulden) relacionados entre si (P41)
Heidegger entende que a doutrina das quatro causas, que remonta a Aristóteles é problemática pois a causa efficiens, que é uma das quatro causas “determina de modo exemplar toda a causalidade”, afirma que em geral nem considera-se mais a causa finalis (finalidade) como causalidade. Buscando no verbo cadere, encontra o significado daquilo “que efetua, que faz com que algo surja dessa ou daquela maneira no resultado”, entende que no pensar grego, para este pensar, nada que tenha em comum com reagir e efetuar pode ser encontrado.
Encontra a noção de causas como modos de comprometimento ao partir da denominação romana de causa, no alemão Ursache e no grego αἴτιον, encontra “o que compromete (verschuldet) uma outra coisa” (P41)
Heidegger exemplifica através do mesmo exemplo da taça utilizado anteriormente que
- A prata é algo a partir de que a taça de prata é feita
- enquanto matéria, ela é cúmplice da taça
- A taça deve à prata, agradece à prata por aquilo em que subsiste
Como o libatório depende do aspecto (eidos,εἶδος) da taça (P41,P42)
A prata, por onde o aspecto enquanto taça penetrou, e o aspecto, por onde a prata aparece, ambos estão a seu modo comprometidos com o libatório. (P41,P42)
Heidegger nota que o libatório não somente deve algo à prata como deve também algo a taça. O libatório é imediatamente dependente do aspecto εἶδος da taça (a prata por si só, não sendo uma taça, não atingiria os propósitos), busca esse sentido no termo “eidos” (εἶδος)
"Eidos" (εἶδος): termo filosófico antigo, central para Platão e Aristóteles para descrever a estrutura inteligível ou forma de uma coisa, uma relação ao aspecto
Como o libatório é comprometido pelo télos (τέλος) (P42)
Heidegger observa um terceiro elemento comprometido com o libatório, que delimita previamente a taça no âmbito do próprio libatório, um elemento que “circunscreve, finaliza a coisa” e busca esse sentido no termo τέλος (télos), cuja tradução por “objetivo” e “fim” ele descorda, entendendo que o termo esta relacionado a esse comprometimento (a um fim)
Com esse fim, a coisa não cessa, mas inicia a partir de si o que será após a fabricação. (P42)
“é o que compromete (Mitverschuldet) o libatório enquanto matéria e enquanto aspecto (P42)
"Telos" (τέλος): o telos está ligado à maturidade e à perfeição funcional. Para os gregos, a palavra carrega a ideia de um ciclo que se fecha porque atingiu sua máxima potência.
O forjador como a junção dos três modos de comprometimento, que leva a luz (ἀποφαίνεσθαι) (P43)
Para Heidegger, o forjador de prata é um quarto elemento que reflete e junta os três denominados modos de comprometimento (a matéria, o aspecto e o télos)
- mas não enquanto causa efficiens, pois ele continua agindo, como efeito de um fazer, o libatório fabricado
Para Heidegger, esse refletir repousa no ἀποφαίνεσθαι (apophainesthai), em um sentido de “levar à luz”, em um sentido quase como de um estímulo.. um trazer à frente um repousar já existente, mas que entretanto, necessitam de um primeiro impulso. Portanto, este é o papel do forjador, dar impulso a uma potência.
O forjador da prata está comprometido enquanto algo a partir de que o trazer à frente, e o repousar em si do libatório, tomam e mantém seu primeiro impulso. Os três modos de comprometimento citados há pouco agradecem à reflexão do forjador da prata por poderem aparecer e entrar em jogo e agradecem pelo modo como puderam fazer isso, na fabricação do libatório. (P43)
Os modos de comprometimento enquanto um ocasionamento (P44)
Para Heidegger é necessário visualizar o instrumental a partir da causalidade, pois “o que é propriamente o instrumental reside no que é causal”, e para isso, irá analisar os quatro modos de comprometimento “a partir do que comprometem”.
Heidegger entende os modos de comprometimento em um sentido de ocasionamento muito mais amplo do que uma noção de primeiro impulso (de ἀποφαίνεσθαι, apophainesthai), um sentido de deixar situar em um completo surgir, o que esta disposto e esta preparado, como algo surgir na presença (An-wesen).
O comprometimento tem o traço fundamental desse deixar situar (An-lassen) no surgir, é portanto um ocasionamento (Ver-an-lassen), nesse tal deixar situar. Heidegger busca esse sentido de comprometimento tal qual dos gregos com o αἰτία (aitía), um amplo sentido tal qual o dos gregos, cujo a palavra significa “a essência da causalidade”
Por onde atua, entretanto, o jogo conjunto dos quatro modos de ocasionar? Eles deixam vir à presença (An-wesen) o que ainda não se apresenta. Por isso, são unitariamente dominados por um levar, que leva à luz o que se apresenta (P45,P46)
Os modos de ocasionar como produzir (ποίησις, poíēsis) e desabrigar ἀλήθεια (alētheia) (P46,P48)
Heidegger reflete sobre este levar a partir de um exemplo do banquete de Platão, mostrando o produzir, através da ποίησις (poíēsis), do **produzir **.
“Todo ocasionar para algo que, a partir de uma não-presença sempre transborda e se antecipa numa presença, é ποίησις (poíēsis), produzir (Her-vor-bringen)” (P46)
Na P46 uma nota sobre esse movimento da poíēsis (Her-vor-bringen)
Para Heidegger é necessário pensar o produzir em toda a sua amplitude, um levar a frente, no sentido dos gregos (ποίησις, poíēsis), no sentido de algo que emerge de si próprio, que tem em si mesmo a irrupção do produzir. Essa irrupção pode ser encontrada em si, ou no outro (por exemplo: a taça de que possui essa irrupção no artista ou artesão).
Os modos de ocasionar, as quatro causas, atuam, desse modo, no seio do produzir. Por meio dele surge, cada vez, em seu aparecer, tanto o que cresce na natureza quanto o que é feito pelo artesão e pela arte. (P47)
Esse produzir é o que leva do ocultamento para o descobrimento, o trazer à frente que se dá na medida em que algo oculto chega ao desocultamento, um surgir que repousa e vibra no que denominamos desabrigar (Entbergen), o sentido da palavra grega ἀλήθεια (alētheia), ou seja a verdade (costumeiramente, a exatidão da representação)
A técnica como modo de desabrigar, de conhecer (no sentido de ἐπιστήμη, epistēmē) e como um modo de um levar a frente, um modo da ἀλήθεια (alētheia) (P49,P51)
Questionemos passo a passo o que a técnica representada como meio é em sua autenticidade e então chegaremos ao desabrigar. Nele repousa a possibilidade de todo aprontar que produz algo. (P48)
Para Heidegger, no desabrigar se fundamenta todo produzir, portanto, esse é o traço fundamental da técnica, é “o que a técnica representada como meio é em sua autenticidade”. A técnica não é meramente um meio, é um modo de desabrigar. Para Heidegger, é no âmbito do desabrigamento que esta a essência da técnica (P49)
Heidegger busca a etimologia da palavra técnica na língua grega. τεχνικόν (tekhnikón) designa aquilo que pertence a τέχνη (tékhnē), que não é somente o nome para o fazer e poder manual, mas também para as arte superiores e belas artes. A τέχνη (tékhnē) pertence ao produzir (ποίησις, poíēsis), é algo poético (poietisches).
Além disso, a palavra τέχνη (tékhnē) segue de par com a palavra ἐπιστήμη (epistēmē), ambas sendo nomes para o conhecer em sentido amplo
- e uma vez que o conhecer dá explicação, também é um desabrigar.
Heidegger resgata a distinção aristotélica entre τέχνη (tékhnē) e ἐπιστήμη (epistēmē), que diz respeito a como e ao quê elas desabrigam… a τέχνη (tékhnē) é um modo da ἀλήθεια (alētheia)
Ela desabriga o que não se produz sozinho e ainda não está à frente e que, por isso, pode aparecer e ser notado, ora dessa, ora daquela maneira. O decisivo na τέχνη (tékhnē), desse modo, não consiste no fazer e manejar, não consiste em empregar meios, mas no mencionado desabrigar; enquanto tal, mas não enquanto aprontar, a τέχνη (tékhnē) é um levar à frente. (P50)
Nos exemplos mostrados por Heidegger, esse desabrigar / levar à frente é segundo as perspectivas dos quatro modos de ocasionar e o que determina o tipo de aprontamento
Para Heidegger, a técnica é um modo de desabrigar, portanto, se essencializa no âmbito onde acontece o desabrigar e o desocultamento, onde acontece a ἀλήθεια (alētheia)
A relação mútua entre a física e a técnica e o desafiar como desabrigar da técnica moderna (o sentido de pôr) (P51,P56)
Heidegger afirma que existe uma relação mútua entre a física e a técnica (a técnica depende da física e a física depende da técnica), isso apenas é uma verificação histórica e “não diz nada sobre onde se fundamenta essa relação mútua” (P52)
Para Heidegger, o desabrigar que domina a técnica moderna não é um desabrigar em um sentido de levar a frente (ποίησις, poíēsis) mas sim de desafiar (Herausfordern), um desafiar que estabelece para a natureza uma espécie de exigência, um pôr da natureza, em um sentido de encomendar (bestellt)
… de fornecer energia suscetível de ser extraída e armazenada enquanto tal (P52)
O pôr que desafia as energias naturais é um extrair (Fördern) em duplo sentido. É um extrair na medida em que explora e destaca. (P54)
O desabrigar que domina a técnica moderna tem o caráter do pôr no sentido do desafio … Explorar, transformar, armazenar e distribuir são modos de desabrigar (P56)
Heidegger entre P53 e P56 apresenta alguns exemplos desse desabrigar desafiante, de seus modos de desabrigar. Esses modos de desabrigar não acontecem ao acaso, são dirigidos, o desabrigar “desabriga para si mesmo os seus próprios e múltiplos caminhos engrenados, porque os dirige”.
A direção e a segurança tornam-se inclusive os traços fundamentais do desabrigar desafiante (P56)
O pôr enquanto subsistência e o papel do homem no requerer (P57,P60)
Heidegger entende que o que vem a luz mediante esse pôr desafiante é requerido para “ficar posto imediatamente para um pôr”, algo em um sentido de encomenda e a essa posição nomeia de subsistência (Bestand)
… eleva-se a categoria de um título … o modo pelo qual tudo o que é tocado pelo desabrigar desafiante se essencializa (P57)
Em P58 Heidegger discute brevemente a determinação de Hegel da máquina como instrumento autônomo
Quem completará o pôr que desafia, pelo qual o que denominamos como sendo o real se desabrigará como subsistência? Manifestamente será o homem
Para Heidegger, desde Platão, onde a realidade se mostra à luz de ideias, o pensador apenas “correspondeu ao que se lhe anunciou”, um desabrigar que requer algo só pode acontecer para Heidegger quando “o homem for desafiado a desafiar as energias naturais” (P59).
Através de uma lista de exemplos Heidegger demonstra como o homem não é uma subsistência por ser requerido uma vez que ele é desafiado mais originariamente do que as energias naturais no requerer (Bestellen), o homem cultiva a técnica, portanto toma parte no requerer (P60)
O homem atende ao apelo do descobrimento mediante um modo de requerer (armação, Ge-stell) (P61,P65)
Entretanto, o descobrimento mesmo, no seio do qual o requerer se desdobra, nunca é algo feito pelo homem, muito menos o âmbito que o homem a toda hora sempre percorre, quando, enquanto um sujeito, se relaciona com um objeto. (P60,61)
O homem possui, através das técnicas, modos de desabrigar, entretanto, para Heidegger o homem sempre se encontrará levado para o que está descoberto, atendendo ao apelo do descobrimento, o homem possui modos de desabrigar a ele dispostos que correspondem a esses apelos.
Se, portanto, o homem, ao pesquisar e observar, persegue a natureza enquanto uma região de seu representar, então ele já é convocado por um modo de desabrigamento que o desafia a ir ao encontro da natureza enquanto um objeto de pesquisa, até que também o objeto desapareça na ausência de objeto da subsistência. (P62)
Essa “ausência de objeto da subsistência” significa que, quando a natureza se torna mera subsistência, ela deixa de ser um objeto, nesse processo o homem vai destruir a condição de objeto, transformando tudo (inclusive o próprio homem) em uma grande engrenagem de recursos e reservas (subsistência)
O homem não destrói a condição de objeto por livre arbítrio; na verdade, o homem é provocado e desafiado por algo que Heidegger denomina de “armação” (Ge-stell), buscando uma aproximação para armação no sentido que Platão atribuía para εἶδος (eîdos) e ἰδέα (idéa)… não apenas “o aspecto não sensível do que é sensivelmente visível”, mas também “o que perfaz a essência … daquilo que de algum modo é acessível” (P64), como um modo de requerer, o próprio aparato técnico (a montagem) será determinada pelo desafio dessa armação
Armação significa a reunião daquele pôr que o homem põe, isto é, desafia para desocultar a realidade no modo do requerer enquanto subsistência. Armação significa o modo de desabrigar que impera na essência da técnica moderna e não é propriamente nada de técnico. (P64)
… estruturas, camadas e suportes, e que são peças do que se denomina como sendo uma montagem (P65)
O requerer desafiante como modo da ἀλήθεια (alētheia), o trabalho da técnica moderna desabriga o real enquanto subsistência (P65)
Heidegger busca uma ressônancia desse pôr (stellen) da armação (Ge-stell) além do desafiar, uma aproximação do produzir (Her-stellen) e expôr (Dar-stellen), o sentido de levar a frente da (ποίησις, poíēsis), tal qual o erigir de uma estátua em um templo, e ainda que este requerer desafiante e esse erigir do sentido da ποίησις, (poíēsis) sejam fundamentalmente diferentes, ainda assim são aparentados, pois são modos de desabrigar, modos da ἀλήθεια (alētheia).
Na armação acontece o descobrimento, segundo o qual o trabalho da técnica moderna desabriga o real enquanto subsistência. Ela não é, por isso, nem um fazer humano nem um mero meio no seio de tal fazer. A determinação somente instrumental, antropológica, da técnica torna-se, em princípio, ilusória; ela não se deixa simplesmente completar com um esclarecimento metafísico ou religioso colocado em sua base. (P65,P66)
Como o homem da era da técnica assume uma postura requerente (P66, P67)
Para Heidegger, o trabalho da técnica moderna desabriga o real enquanto subsistência… o homem da era da técnica assume uma postura requerente, vendo “à natureza como um depósito caseiro de reservas de energias”, essa postura requerente do homem “mostra-se, em primeiro lugar, no surgimento da moderna e exata ciência da natureza” onde “põe a natureza como um complexo de forças passíveis de cálculo”, na física, o experimento é requerido
para questionar se a natureza assim posta se anuncia e como ela se anuncia
A relação da técnica moderna com a ciência exata e a requeribilidade da natureza exige enquanto subsistência (P67, P70)
Para Heidegger afirmar que “a técnica moderna somente entrou em curso quando ela pôde apoiar-se sobre a ciência exata da natureza” é correto em termos historiográficos (historisch) mas não é verdadeiro se pensado em termos históricos (geschichtlich)
Nota sobre as distinções da história presente em Heidegger na P67
Para entender essas distinções é necessário ler os trechos mencionados de Ser e Tempo
A moderna teoria física da natureza é a preparação, não da técnica, mas da essência da técnica moderna (o que é primordial), o recolher que desafia no desabrigar requerente ja impera na física
Na P68 e P69 Heidegger reflete sobre o ocultamento da essência, não só da técnica, mas em âmbito geral.
Heidegger reflete sobre a essência da técnica moderna e à essência que nela impera, com relação ao que é o “historicamente mais primordial”. Enquanto para o cálculo historiográfico o início da moderna ciência da natureza reside no século XVII a a técnica das máquinas de força somente se desenvolve na segunda metade do século XVIIII
A “requeribilidade da natureza exige enquanto subsistência” é exigido pelo “imperar da armação”, a física nunca pode renunciar “que a natureza se anuncie em algum modo asseverado, calculado, e permaneça possível de ser requerida como um sistema de informações”, esse sistema se determina a partir de uma relação de causalidade, mas não no sentido de “causa efficiens” ou da “causa formalis”, mas sim em uma causalidade mediante um “anunciar desafiado de “rebentos asseguradores, simultâneos ou consecutivos”
Heidegger entende que é necessário questionar a proveniência da ciência moderna e a essência da técnica moderna adequadamente para se livrar da aparência enganadora de que a técnica moderna é uma ciência da natureza aplicada.
Porque a essência da técnica moderna reside na armação, esta necessita empregar a ciência exata da natureza. Desse modo, nasce a aparência enganadora de que a técnica moderna é uma ciência da natureza aplicada. Esta aparência se sustentará até que a proveniência essencial da ciência moderna e a essência da técnica moderna sejam adequadamente questionadas. (P70)
O destino (Geschick) como caminho para o desabrigar, que possibilita o elemento histórico (das Geschichtliche) e que é um produzir (ποίησις, poíēsis) (P71, P73)
A armação não é nada de técnico, nada de tipo maquinal. É o modo segundo o qual a realidade se desabriga como subsistência. (P71)
Para Heidegger a essência da técnica moderna portanto, é a armação e esse desabrigar não acontece num além a todo fazer humano mas também não acontece somente no homem, não por ele. Heidegger entende que o homem enquanto alguém desafiado esta situado na armação e sendo desafiado, não pode assumir posteriormente uma relação com ela, e que portanto, é conduzido por essa essência da técnica, para um caminho daquele desabrigar, onde o real torna-se subsistência.
Heidegger aproximará essa ideia de “conduzir por um caminho” ao significado de enviar (schicken), da língua alemã e também a uma idéia de destino (Geschick)
Denominamos aquele enviar que recolhe e que primeiramente leva o homem para o caminho do desabrigar, como sendo o destino (Geschick) (P72)
Para Heidegger é a partir dai que se determina toda a essência da história (Geschichte), que “não é nem somente o objeto da historiografia (Historie) nem somente a ratificação do fazer humano”. Esse fazer humano somente é algo histórico (geschichtlich) quando é algo destinal (geschickliches).
E somente o destino na representação objetificante torna acessível o elemento histórico (das Geschichtliche) como objeto para a historiografia (Historie), isto é, para uma ciência, e a partir disso torna apenas possível a corrente equiparação do histórico (Geschichtlichen) ao historiográfico (Historischen) (P73)
Nesse sentido, Heidegger afirma que esse destino, que envia a armação, também é um produzir (ποίησις, poíēsis).
Enquanto desafiar no requerer, a armação envia num modo de desabrigar. A armação é um envio (Schickung) do destino, assim como todo modo de desabrigar. Destino, neste sentido, é também um produzir, é ποίησις. (P73)
A relação da liberdade com o destino do desabrigar (P72,P76)
Heidegger reflete sobre a essência da liberdade, a partir desse destino do desabrigar que sempre domina os homens. Para Heidegger, esse destino não é uma coação, pois a liberdade esta atrelada a essa armação uma vez que o homem pertence ao âmbito do destino, tornando-se “um ouvinte (Hörender), mas não um servo (Höriger)”
A liberdade domina o que é livre no sentido do que é focalizado, isto é, do que se descobre A liberdade é o âmbito do destino, que toda vez leva um desabrigamento para o seu caminho (P73)
Heidegger discorda que “a técnica é o destino de nossa época”, em um sentido de “algo que não pode ser desviado de um transcurso inalterável”, para ele “se nos abrirmos propriamente à essência da técnica, encontrarnos-emos inesperadamente estabelecidos numa exigência libertadora”, ou seja, estamos sim, submetidos de alguma maneira ao destino do desabrigar, entretanto, o homem ainda possui um papel fundamental nesse desabrigar, sendo a sua essência
Por meio disso tranca-se a outra possibilidade, de que o homem, sempre mais cedo e sempre mais inicialmente, se entregue à essência do que se descobre e de seu descobrimento, para experimentar o pertencimento empregado (gebrauchte Zugehörigkeit) ao desabrigar como sendo a sua essência. (P76)
Nota sobre a expressão "pertencimento empregado" em P76
…designa um duplo movimento: remete ao fato de que o homem não é o senhor do destino e da história, mas é alguém que é por essência usado, embora seja ele mesmo a se oferecer a algo que o ultrapassa.
O desabrigar e os caminhos do homem requerido (que não encontra a si mesmo) (P76,P79)
Na P76 uma nota sobre o perigo enquanto necessário
Uma vez levado a estas possibilidades, o homem está, a partir do destino, colocado em perigo. O destino do desabrigamento é, enquanto tal, em todos os seus modos, um perigo, e, por isso, necessariamente um perigo (P76)
Heidegger afirma que o descobrimento proveniente do desabrigamento abriga dois perigos:
- “perigo de o homem se equivocar junto ao que está descoberto e falseá-lo” (na luz da conexão de causa e efeito)
- por meio do resultado do descobrimento, “o perigo de em todo o correto se retrair o verdadeiro”
Para Heidegger, se o que estiver descoberto não mais interessar ao homem como objeto, mas apenas como subsistência, o homem mesmo “caminhará para o lugar onde ele mesmo deverá apenas ser mais tomado como subsistência”, entretanto, buscando se contrapor a essa posição, as vezes o homem assume a figura “do dominador da terra” e assim “amplia-se a ilusão de que tudo o que vem ao encontro subsiste somente na medida em que é algo feito pelo homem”. Heidegger se opõe a essa ideia, de que “o homem em todos os lugares somente encontra mais a si mesmo”, pois através dessa postura, o homem não mais se coloca como responsável, não se dar conta de que ele mesmo é requerido.
O homem está tão decididamente preso à comitiva do desafiar da armação, que não a assume como uma responsabilidade, não mais dá conta de ser ele mesmo alguém solicitado e, assim também, não atende de modo algum ao fato de que, a partir de sua essência, ele ek-siste no âmbito de um apelo e que, por isso, nunca pode ir somente ao encontro de si mesmo. (P79)
O desabrigar desafiante enquanto barreira para o conhecimento da verdade (P79,P81)
A armação, enquanto destino, aponta para um desabrigar do tipo requerer, e onde impera esse desabrigar, nenhum outro desabrigar tem espaço, inclusive o desabrigar no sentido do produzir (ποίησις, poíēsis), de um vir a frente, é ocultado pela armação, pois “o pôr que desafia impulsiona na relação oposta para aquilo que é”.
Portanto, para Heidegger, a técnica não é o que há de perigoso, o perigo está nesse desabrigar enquanto um destino, pois a armação “impede o aparecer e imperar da verdade”. Portanto a “ameaça dos homens não vem primeiramente das máquinas e aparelhos da técnica cujo efeito pode causar a morte”, mas sim da impossibilidade do conhecimento da verdade
Assim, pois, a armação desafiadora encobre não somente um modo de desabrigar anterior, o produzir (Her-vor-bringen), mas encobre o desabrigar enquanto tal e, com ele, aquilo por onde acontece o descobrimento, isto é, a verdade. (P80)
A autêntica ameaça já atacou o homem em sua essência. O domínio da armação ameaça com a possibilidade de que a entrada num desabrigar mais originário possa estar impedida para o homem, como também o homem poderá estar impedido de perceber o apelo de uma verdade mais originária. (P81)
De que forma a essência da técnica contém a sua salvação? (P82, P88)
Mas onde há perigo, cresce também a salvação (P81)
Heidegger busca refletir a partir dessa palavra de Hölderlin, o significado de “salvar”, buscando se afastar da noção tradicional de que salvar é “apanhar algo que foi ameaçado pelo declínio para assegurá-lo no curso normal que se manteve até o momento”. Uma vez que a salvação mora onde há o perigo, Heidegger busca entender mais sobre a essência da técnica, uma vez que “é na sua essência que deita raízes e medra aquilo que salva”.
Como podemos, contudo, avistar na essência da técnica aquilo que salva na medida em que não refletimos sobre que sentido de “essência” está mesmo presente na armação enquanto a essência da técnica? (P83)
Reflexões sobre a essência no sentido de durar (P83)
Heidegger rejeita o significado tradicional de essência como “gênero comum”, portanto, a armação não é o gênero comum para tudo o que é técnico. “A armação é um modo destinal de desabrigar, a saber, o que desafia”, a armação é um desabrigar produtor, tal qual o produzir (ποίησις, poíēsis) (que é bloqueado pela armação).
O desabrigamento é aquele destino que, desde sempre, se distribui de modo não esclarecido a todo pensar no desabrigar produtor e desafiador, e se destina aos homens. O desabrigar desafiador tem sua proveniência destinada no desabrigar produtor. Mas, ao mesmo tempo, a armação bloqueia destinalmente a ποίησις (P85)
Heidegger busca uma reaproximação da essência em um sentido de algo que dura, em um sentido do imperar (do que impera)… no sentido de um consentimento contínuo.
Se, no entanto, refletirmos mais intensamente sobre o que propriamente dura e talvez dure de modo singular, então podemos dizer: somente o que é consentido dura. O que dura inicialmente a partir dos primórdios é aquilo que consente. (P88)
A essência enquanto um consentimento no que dura (P88, P89)
a essência da técnica admite o homem para algo que ele propriamente não consegue a partir de si nem achar e muito menos fazer; pois algo como um homem, que unicamente é homem a partir de si, não existe (P89)
Heidegger questiona esse consentir nesse destino (da armação), e entende que uma vez que o homem esta empregado, cada destino de um desabrigar acontece a partir de um consentir e enquanto tal… “o homem está unido ao acontecimento da verdade”, ele tem um papel ativo nesse desabrigar, e isso é o que salva. Para Heidegger, é no perigo desse desabrigar que “vem à luz o pertencimento íntimo e indestrutível do homem àquilo que consente, a supor que comecemos a fazer a nossa parte atentando para a essência da técnica”.
Assim, a essencialização da técnica abriga em si o que menos poderíamos supor, o possível emergir da salvação. (P90)
A essencialização da essência e ambiguidade da essência da técnica (P90,P93)
Para pensarmos e protegermos esse emergir na memória, é necessário uma postura onde “avistamos a essencialização na técnica e não apenas fitamos a técnica”, ou seja, não mais só representar a técnica como instrumento, ao qual se pode dominar.
Heidegger entende a essência da técnica (a armação) como altamente ambígua, pois a armação que desafia, impede o olhar para o acontecimento do desabrigar, colocando em perigo a relação com a essência da verdade (é a fúria do requerer) ao mesmo tempo em que o homem “é utilizado para a percepção-resguardadora (Wahrnis) da essência da verdade”, portanto essa ambiguidade se da na “irresistibilidade do requerer” e na “reação do que salva”.
A essencialização da técnica ameaça o desabrigar, ameaça com a possibilidade de todo desabrigar emergir no requerer e tudo somente se apresentar no descobrimento da subsistência. O fazer humano nunca pode imediatamente ir ao encontro deste perigo. A empresa humana nunca pode sozinha banir este perigo. Mas, a meditação humana pode refletir sobre o fato de que tudo o que salva necessita de uma essência superior à do perigo, embora ao mesmo tempo a ela aparentada. (P93)
O papel da arte na essencialização da essência da técnica (P93)
Heidegger reflete sobre as belas artes e a sua relação com a técnica, lembrando que a τέχνη (tékhnē) também era o produzir do verdadeiro no belo, além disso, relaciona com πρόmos (prómos).
Ela era um singular e múltiplo desabrigar. Ela era devota, πρόmos, isto é, adequada ao imperar e à guarda da verdade. (P94)
Ao buscar refletir sobre “o que era a arte”, nota que a τέχνη (techne) pertencia a ποίησις (poiesis), “ela era um desabrigar que levava e punha à luz”, ou seja, o poético leva o verdadeiro ao brilho
O poético perpassa essencializando toda arte, todo desabrigar do que é essencial para dentro do belo. (P95)
Heidegger reflete sobre como o desabrigar devem tomar as belas artes, nota que embora não saibamos se para a arte “está assegurada esta mais alta possibilidade de sua essência no seio do perigo extremo”, entretanto, precisamos vislumbrar a possibilidade de que “por todos os lugares a técnica se instale, até que num dia, passando por tudo o que é técnico, a essência da técnica se essencialize no acontecimento da verdade”.
“A essência da técnica não é nada de técnico”, sendo assim:
… a meditação essencial sobre a técnica e a discussão decisiva com ela devem acontecer num âmbito que, por um lado, está aparentado com a essência da técnica e, por outro lado, no entanto, é fundamentalmente diferente dela. Um tal âmbito é a arte, mas somente quando a meditação artística, por seu lado, não se trancar à constelação da verdade, pela qual questionamos. (P96)
Para Heidegger, vivemos uma crise de que “não experimentamos a essencialização da técnica diante da pura técnica, que não protegemos mais a essencialização da arte diante da pura estética”, nesse sentido, é necessário continuar se questionando sobre a essência da técnica para se chegar a essência da arte.